MidiataticaWakka : CinemaPensar

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CINEMA PENSAR
Educando a liberdade do olhar

por Marcello Alves Costa

"O ideal é que o cinema e o rádio fossem, no Brasil, escolas dos que não têm escolas."

(Roquette Pinto, 1936)

"A nossa televisão tem 50 anos de existência. Nesse tempo, ela poderia ter alfabetizado todo o nosso povo, contado a nossa história, criando um sentimento de nacionalidade."
(Fernando Barbosa Lima, 2002)

Cinema na escola “Cinema pensar”

Síntese: “Cinema na escola” objetivando as idéias e ideais de um país pautado na educação formal e informal, divulgando a cultura e a arte em todos âmbitos humanos, o projeto “Cinema pensar” provoca o pensamento e a mudança para alunos de rede pública e particular.
O uso do cinema na escola exige uma discussão de caráter filosófico: as relações entre cinema e educação. E uma discussão de caráter pragmático: o uso do cinema como agente no processo de ensino e aprendizagem na rotina escolar.
Assim, a pergunta inicial pode ser reestruturada nos seguintes termos: o cinema pode melhorar a escolarização no ensino fundamental, médio e superior? Como utilizar do ponto de vista pedagógico o cinema? Ou, que práticas pedagógicas inspiram o cinema? Isto nos leva a outras questões: um filme exibido no ensino superior pode ser projecionado para o ensino fundamental? Os filmes devem ser exibidos de acordo com a escolaridade ou a faixa etária?
As possibilidades educacionais do cinema e o seu aproveitamento na atividade escolar orientam-nos para uma resposta afirmativa. A arte cinematográfica contribui para disseminar a arte e a cultura, e pode exercer influência positiva nos estudantes. A esperança é que o cinema, pela sua natureza afetiva, abra as portas da percepção para o prazer da descoberta das disciplinas das Ciências Sociais, da Literatura, da Filosofia, da Física, da Biologia e da Química.
O cinema como prática pedagógica pode fazer o aluno a se interessar pelo conhecimento, pela pesquisa, de modo mais vivo e interessante que o ensino tradicional, apoiado em aulas expositivas e seminários. O porquê do cinema na escola só se justifica se ele desperta o interesse pelo ensino no sentido tradicional, e, ao mesmo tempo, mostra novas possibilidades educacionais apoiadas na narrativa cinematográfica.

“Cinema Pensar”: Projeto idealizado por recém – formados em Cinema e vídeo e com alguma experiência na educação informal na área do audiovisual juntamente com a educação, “Cinema – pensar” propõe uma reflexão e análise sobre a sociedade contemporânea através da linguagem audiovisual, a magia da sétima arte diante dos olhos da nossa juventude e o poder visceral da imagem na formação psicológica, ética e de cidadania; Não podendo deixar de ressaltar o poder político e social do cinema perante os olhos do ser humano: cinema esse que pode entreter, informar e ter conotações de mudança para a juventude do mundo atual.

De maneira acadêmica, porém informal o projeto “Cinema – pensar” promove e divulga a cultura, independente do bairro ou classe social do Rio de Janeiro, pretendendo chegar em colégios da zona sul do Rio de janeiro até escolas da Baixada Fluminense sem nenhum tipo de exclusão; A partir desse panorama teremos um documento investigativo sobre os interesses ideológicos vigentes na juventude dos dias atuais, possibilitando com isso apontar e salientar os problemas existentes, objetivados pela juventude em fase de formação psicológica.

Com a exibição de filmes com interesses sociais, políticos e de cidadania procuramos provocar o pensamento e/ou revitalizar ideais presentes em muitos desses jovens, salientando a posição da “Indústria Cultural” que pauta o consumo como o bem necessário, deixando a existência humana em segundo plano.

Educando o olhar do aluno, colocando ele como “ser” e não “ter”, fazendo um panorama do poder dos meios de comunicação influenciando na decisão particular de cada cidadão.
No ensaio da reprodução da obra de arte, Walter Benjamin propõe a elaboração de uma estética materialista. O filme é uma mercadoria. A análise mercadológica do filme é o que nos interessa enquanto educadores e professores. No ensaio O surrealismo. O último instantâneo da inteligência européia, Benjamin fala do conceito de espaço imagético, um espaço construído inteiramente de imagens, da racionalidade técnica. Penso o imagético como conceito operatório eficaz na análise fílmica, orientado para a educação das massas. O imagético circunscreve o que podemos chamar de uma pedagogia da imagem e do som. E pode ser aplicado aos diversos gêneros cinematográficos.
Educar pelo cinema ou utilizar o cinema no processo escolar é ensinar a ver diferente. É educar o olhar. É decifrar os enigmas da modernidade na moldura do espaço imagético. Cinéfilos e consumidores de imagens em geral são espectadores passivos. Na realidade, são consumidos pelas imagens. Aprender a ver cinema é realizar esse rito de passagem do espectador passivo para o espectador crítico.

O cinema é uma prática social que colabora com a construção do imediatismo mítico do presente. No enfoque de Benjamin, o cinema pode colaborar para destruir esse imediatismo, esse continuum cultural que prolonga o tempo do novo sempre-igual. O filme é uma fantasmagoria que pode destruir o fantasmagórico. O cinema pode ser um feitiço contra o feiticeiro. Entender a feitiçaria do cinema é um processo educacional que leva a recusa do mito, supera a alienação, destrói o fetiche da mercadoria.

Em uma das passagens destes ensaios, Benjamin diz que o capitalismo é um sonho mítico que ocorreu na Europa no século XIX. Este sonho engendra o sonho da alienação, o qual sonhamos com os olhos abertos. A arte, em particular a cinematográfica, deve nos fazer despertar deste sonho, contribuir para virar feitiço contra o feiticeiro.

Despertar o interesse pela arte e pela criatividade é um dos maiores interesses do projeto “Cinema pensar”, fazer com que adolescentes saibam distinguir entre arte e mercadoria da indústria cultural; Mas nem por isso deixar o entretenimento do lado de fora da formação criativa desses cidadãos, na exibição dos filmes ficando evidente que podemos nos entreter com idéias que provoquem o pensar, deixando claro que a arte de nenhuma forma anula a diversão.

O cinema na escola exige uma visão mais ampla que essa que utiliza as imagens como recurso ilustrativo de conteúdos didáticos. A imagem deverá ser a fonte do conhecimento, da reflexão.
O projeto “Cinema pensar” pretende ter o enfoque em turmas de 5a a 8a série e do ensino médio, afirmando o potencial desses estudantes para a evolução e desenvolvimento do país.
Vale salientar que a atividade proposta pelo projeto “Cinema pensar” não exclui a educação formal de nenhuma forma, pelo contrário revitaliza os moldes tradicionais e abre leque de outras possibilidades para os alunos.

As atividades do projeto “Cinema pensar” não pretender de nenhuma forma entrar em grade curricular, o objetivo é também colocar a questão da arte como um aprendizado extra curricular, além de revitalizar a vontade do aluno de estar dentro das dependências da escola.
Ficando a critério da escola, a escolha de horários e o dia mais conveniente para a atividade; Os responsáveis pelo projeto colocam – se a disposição para outras exibições conforme o interesse do diretor da escola, podendo até criar vínculos de acordo com as intenções da escola.

O projeto é uma atividade de iniciativa particular, mas nem por isso se enquadra numa “Ong”, podendo futuramente designar para esse objetivo; Agindo nos moldes de uma ong “Cinema pensar” é também sem fins lucrativos para os membros do projeto, deixamos evidenciado que as despesas ficam por conta dos próprios idealizadores do projeto, o colégio não ficará responsável por nenhuma despesa financeira sobre a realização e exibição dos filmes, o projeto “cinema pensar” não cobra ingresso mais conta com uma contribuição mínima dos alunos não obrigatória para com que a idéia continue viva e respirando, porém isso não da a condição do projeto ter finalidades lucrativas.
Cabendo a escola interessada apenas as formas de divulgação tais como: dia, horário e a contribuição no valor de R$2,00, divulgação essa que deve ser feita durante todo mês que antecede a exibição do filme ou pelo menos quinze dias antes, o projeto dá o auxilio na divulgação com cartazes dos filmes que serão exibidos e uma pequena publicidade do projeto.

Todos organizadores do projeto estarão devidamente com a camisa do “Cinema pensar” e ficaram imbuídos da responsabilidade de debater sobre o filme apresentado, tendo todos os membros as mesmas condições favoráveis para isso.

A exibição do filme não deverá ultrapassar duas horas e logo após a exibição uma mesa com os realizadores do projeto podendo conter algum convidado, fará um debate sobre o assunto tratado debatendo e dialogando com os alunos presentes.

Para ativar o pensamento do aluno, logo após a exibição dos filmes e do debate pediremos aos alunos presentes para que escrevam uma “redação, crítica ou resenha” de uma lauda sobre o filme que acabaram de assistir.

Nós realizadores do projeto ficamos imbuídos da responsabilidade de levar as redações e publicaremos as duas mais interessantes “de acordo com a nossa opinião” no site do projeto. www.cinemapensar.com.br

Sobre os critérios de seleção dos “escritos” fica restrito aos curadores do projeto, aceitando qualquer tipo de opinião e de manifestação pelas escolhas.

Sobre os filmes a serem exibidos, os responsáveis do projeto pontuam para os educadores a importância da leitura audiovisual desses filmes pelos alunos, de acordo com a exigência da escola podemos até mesmo exibir os filmes antes para o corpo de educadores e salientar – mos a importância dos mesmos antes de fazermos uma projeção para os alunos.
Todos filmes que fazem parte do projeto são filmes com intimo social e humano, que falam de diferenças, do sistema financeiro, juventude, drogas, mídia, relacionamento humano e etc; Criando um diálogo visual com os alunos quando os mesmo vêem a sua realidade exposta, é certeza de identificação e desse ponto em diante a visualização da sua vida será efetivada e feita de maneira diferente, interessante também mais do que tudo é o valor artístico informativo do projeto.
Todos os filmes que fazem parte das exibições são analisados criticamente por membros do “Cinema Pensar”.

A projeção será feita em um fundo “negro” ou “branco” de responsabilidade dos realizadores e com capacidade máxima para 180 pessoas de acordo com o espaço cedido, podendo fazer até mesmo duas exibições ou mais de acordo com a necessidade do colégio pelo numero de alunos e pelo espaço cedido.

O debate contará com o auxilio material da escola na presença de uma mesa e cadeiras onde sentaram os debatedores.
A utilização de dois microfones mediará o debate, um microfone ficará na mesa com os realizadores do projeto e outro com os alunos para que os mesmos possam expressar suas opiniões a respeito do filme.

Os microfones inicialmente são de responsabilidade dos realizadores do projeto, contando com eventual auxilio da escola quando dispor de equipamentos.

A acomodação dos alunos é de responsabilidade da escola, podendo senta – se em cadeiras de aula de uma maneira formal o que é demais interessante ou até mesmo de uma maneira informal acomodando – se no “chão” o que tem sua parcela de diferença.

A exibição poderá ser feita em qualquer espaço físico da escola, tais como “quadra de esporte coberta, sala de aula grande ou espaço especifico para cinema”.

A idéia da desmistificação do cinema e da arte de uma maneira geral para os meios acadêmicos faz – se presente na filosofia do projeto “Cinema Pensar”, decodificando os signos da linguagem audiovisual e tornando os significados bem familiares aos alunos e professores que não trabalham com a arte e que tem uma visão deturpada do conceito de “obra de arte”. Os métodos utilizados para tal efeito são dos mais variáveis possível como, por exemplo, a sedução perante o excesso de cor e da velocidade, fazer uma leitura inversa da “Indústria Cultural” com tudo utilizando os mesmos meios de persuasão para os alunos decodificarem a mensagem exposta.

A partir desse conceito de “desmistificação do cinema” elucidamos o poder da imagem para o receptor e a má utilização de imagens e sons “audiovisual” pelos meios de comunicação em massa, não subtraindo o cinema desse poder “negativo” muita das vezes.

Elucidamos mais ainda para o telespectador sem um “olhar critico” o molde que é utilizado pelas industrias midiaticas, conseguindo poucos artistas fugir desse molde imposto e elaborar realmente uma “obra de arte”.

O conceito de “Indústria cultural” não é retroativo de maneira alguma, conceito esse elaborado pelo alemão T. W. Adorno (1903-1969), para ele a arte virou consumo industrializado e todo consumo industrial é padronizado, como tabletes de chocolates ou qualquer outro tipo de produto industrializado, a arte que teria a capacidade de fazer um retrato sincero da existência humana foi padronizada e despersonalizada, daí surgiu o termo “Indústria Cultural”.

A industrialização da cultura não só padroniza todos os meios de expressão artística como impõe o consumo para todos os tipos de idade, principalmente jovens que não são induzidos ao olhar crítico, a observação, eles consomem a imposição da industria como, por exemplo: filmes adolescentes que tratam do sexo e erotismo de uma maneira fácil, vulgar e superficial; filmes de ação e guerra que delegam a vida a segundo plano, onde assassinatos não são percebidos como assassinatos e sim como forma de diversão, a forma de espetacularização da vida; dramas chorosos onde a apelação para a emoção do espectador ultrapassa qualquer sentido emocional, sempre colocando os telespectadores como alienados.

A idéia do projeto é também elucidar contra esse tipo de industrialização da cultura e arte e fazer com que o aluno tenha um olhar critico e pensante diante das circunstancias de sua vida e das pessoas em volta.

Não é deixar de ver filmes com apelo fácil, já que é uma realidade pré – estabelecida pela modernidade e pós – modernidade, porém, é saber olhar e diferenciar.
Popularizar e democratizar o acesso a verdadeira arte, a “alfabetização audiovisual” é um termo interessante o qual vamos decorrer, pelo texto de Eduardo Jaime Torres Ribeiro da Escola Superior Artística do Porto publicado no jornal a página.

Alfabetização cinematográfica e audiovisual

Na introdução à publicação "L'Education Cinematografique" a Unesco defende que a melhor forma de defender o público, e em particular a juventude, de excessos e erros das mensagens audiovisuais é a formação e a criação de hábitos pelos espectadores, de forma a garantir a possibilidade de escolha e a melhor compreensão da mensagem audiovisual. Ainda segundo esta instituição mundial, a educação cinematográfica tem já, em muitos países, um lugar estabelecido nos planos curriculares do ensino, não se restringindo a atividades extra letivas ou de voluntariado cineclubístico, cabendo-lhe uma função educativa essencial. Como exemplo desta situação podemos apresentar a Inglaterra, que já em 1960 possibilitava educação cinematográfica aos seus alunos em 700 escolas.

De acordo com o testemunho de Lauro António, o Cinema e o Audiovisual na Escola têm uma função de cidadania, quando esclarece os alunos das armadilhas e truques do audiovisual numa sociedade dominada pela mídia. Nos países escandinavos é no ensino básico que as crianças e os jovens tomam contato, na escola, com o Audiovisual e a sua linguagem. Para J.M.L. Peters, é comum os pais e educadores insurgirem-se contra a violência na televisão e no cinema e o efeito que esta tem sobre os jovens. Estas mensagens terão eventualmente efeitos nocivos sobre os jovens mal formados e/ou sem conhecimentos necessários à interpretação de uma obra no contexto cultural, sem conhecimento da envolvência artística e social e mesmo devido à incapacidade de compreensão de mecanismos da linguagem cinematográfica e da narrativa. É neste enquadramento que se torna necessário desenvolver o espírito crítico do espectador que permite julgar e apreciar a obra fílmica. Esta "educação cinematográfica" implica também uma formação estética na perspectiva de que a experiência artística é indispensável à formação harmoniosa da personalidade. A abordagem de aspectos sociais, morais e espirituais é outra faceta promovida pela educação cinematográfica dado serem estas temáticas abordadas pelo cinema. A introdução da linguagem cinematográfica possibilitará uma nova dimensão ao espaço mental dos alunos. Da necessidade de existir uma aprendizagem do cinema na escola, sigamos os pressupostos da alfabetização. É hoje impraticável conceber um jovem que não saiba ler e escrever os caracteres da sua língua materna que lhe darão acesso a controlar, compreender e usar a linguagem. Hoje em dia, a imagem em movimento, nas suas várias vertentes, do computador à televisão passando pelos jogos interativos e partindo do cinema, povoam o cotidiano e o imaginário de todos nós e particularmente dos jovens, pelo que será impraticável no curto prazo não saber ler e escrever a linguagem da imagem em movimento, que tem as suas características próprias, como todas as linguagens, de que se salienta a versatilidade e a novidade. Estas características, vantajosas do ponto de vista criativo, levantam problemas de ordem institucional dado que limitam as possibilidades de ensino tradicional - um guia de aprendizagem, uniformização de critérios e procedimentos. De certa forma, é aqui que entronca o cerne da questão do ensino artístico, mas também a sua virtude, criando pontos de equilíbrio, alternativas metodológicas, funcionais, formativas, a alunos cada vez mais abertos a todo o tipo de estímulos a que a escola tem de dar resposta, sob pena de se transformar numa instituição pesada e desinteressante do ponto de vista pedagógico.

É neste quadro que o ensino-aprendizagem do cinema e da linguagem cinematográfica tem pertinência, permitindo vitalizar a aquisição de conhecimentos, potenciar formas de expressão, desenvolver o juízo crítico. Educar quer dizer contribuir para o desenvolvimento harmonioso de uma pessoa por meio de boas relações com a realidade em que tal pessoa vai vivendo. Assim, a educação não pode ser concebida como qualquer coisa estática, à margem da experiência concreta do educando. Todos os estímulos, todas as componentes de tal experiência devem ter lugar na atividade educativa cotidiana.


Autor do artigo Eduardo Jaime Torres Ribeiro
Escola Superior Artística do Porto
Jornal "a Página" Nº 112 Ano 11 | PORTUGAL Maio 2002 Pag. 46


O texto é um de vários escritos por todo o mundo sobre a educação informal pelos meios artísticos, o autor decorre sobre a importância do olhar critico e faz referencias e informações importantes o qual o “Projeto Cinema Pensar” se enquadra e ainda salientamos no sentido amplo de uma reflexão sobre a formação do olhar como uma perspectiva de transformação social.
Vale a pena reafirmar que a “cultura é visual” formada pelo espetáculo No entanto, até 1500, havia uma suspeita quanto ao olhar. Na Renascença, então, o olho se torna o ponto central da cultura.
Necessitamos, nessa sociedade que possui uma cultura visual, uma real alfabetização audiovisual. Antigamente, na Inglaterra, o governo encampou uma alfabetização dos trabalhadores somente para ler. Similar ao que ocorre atualmente, quando não possuímos acesso à escrita audiovisual, e ficamos limitados ao consumo dos produtos audiovisuais.

A educação proporcionada pelo cinema é uma educação informal. O cinema, ou pelo menos o cinema no modelo hegemônico, que é o norte-americano, educa segundo as regras de um mundo social alienado. Entretanto, é preciso reconhecer que a própria indústria cinematográfica apresenta suas fissuras, e que temos nos Estados Unidos, se assim podemos chamar, um cinema de dissidência, um cinema de esquerda.

Creio que o exemplo mais radical deste cinema é o “Clube da luta”, de David Fincher, uma revolta contra o cartão de crédito. Este filme utiliza elementos da violência cinematográfica para fazer uma crítica da violência que é o estilo de vida americano baseado no consumismo. O mau êxito nas bilheterias de o “Clube da luta”, mesmo com um ator consagrado e pop como Brad Pitt, mostra que a rejeição do público americano para com esse filme é, no fundo, uma recusa a uma autocrítica do sistema, dos valores que norteiam a vida nos Estados Unidos. Talvez este filme possa ser utilizado como um modelo pedagógico que critica a pedagogia institucionalizada naquele país.
O fato é que o filme reascende a fogueira da maligna influência do cinema sobre os espectadores. E aqui caímos sobre o óbvio: sem cultura cinematográfica não se pode analisar esta fita ou outra qualquer. Proponho uma leitura rápida desse filme como um instrumento de desalienação dos sentidos.

“Clube da luta” trava um combate direto contra o feitiço da mercadoria. O gigantesco sistema de produção e troca capitalista transformou tudo e todos numa fantasmagoria. O filme é uma recusa ao feitiço, à feitiçaria imagética da sociedade do espetáculo. Essa recusa é uma luta de boxe na arena do cinema americano. Uma luta desse porte parece um delírio esquizofrênico. Lutar contra o sistema é dar provas de doença, de insanidade. Melhor é submeter-se à mediocridade que domina a mídia, os congressistas, as corporações, o sistema educacional e os jovens em escala mundial.

“Clube da luta” nasce em “Easy Rider”. Os motoqueiros de Dennis Hopper, assassinados por racistas no sul dos Estados Unidos, renascem nas peles de Jack e Tyler Durden. Eles fazem a viagem radical da luta contra o estilo de vida americano, que só pode terminar numa explosão que arrasa o centro financeiro do país em Nova York. À medida que os pobres do filme recusam a feitiçaria, cresce a revolta contra o feiticeiro. A violência estilizada do filme é uma crítica à violência real que caracteriza o cotidiano norte-americano.

A mesma temática está em “Trainspotting”, de Danny Boyle, que não é um filme sobre drogas, mas uma sarcástica narrativa sobre os estragos da sociedade de consumo nos corações e nas mentes dos humilhados e ofendidos do mundo yuppie e pós-moderno. É uma narrativa daqueles que não podem comprar ou consumir o feitiço.

A sociedade da abundância não criou a liberdade. Liberdade é a abolição da necessidade. “Clube da luta” poderia ter o roteiro assinado por Dostoievsky, o atormentado romancista russo. O filme relembra “Week-End”, de Jean-Luc Godard, inesquecíveis fotogramas de um colossal engarrafamento da sociedade capitalista num fim de semana.

Ou a pirotécnica explosão em “Zabriskie Point”, de Antonioni. A mansão estilhaçada, indo pelos ares no acompanhamento musical do Pink Floyd. Sobre o que fala o “Clube da luta”? Fala da recusa radical da sociedade do espetáculo. É uma ópera hiper-realista sobre as estruturas econômicas que chocaram o homem unidimensional. O filme não é um elogio da violência. É um contraditório manifesto contra um sistema que colocou a economia e não a felicidade como o principal objetivo do homem.

Creio que esses filmes podem ser analisados como modelos de uma pedagogia crítica em relação a uma pedagogia institucional, e que seria exemplificada por filmes de final feliz. É necessário que esses filmes sejam elucidados por um olhar crítico que contribua com o processo de ensino e aprendizagem mediado pelo cinema.

A sala de aula deve ser considerada como um espaço imagético. Espaços da realidade ou da fantasia, da racionalidade econômica e burocrática da vida administrada. Espaços de uma objetividade que é a morte da alma e da curiosidade, a falência do estímulo e da criatividade diante do mistério da existência.

A sala de aula já vem incorporando, vem sofrendo, a intervenção dos meios de comunicação de massa com a utilização de jornais, revistas, programas de televisão. Porém, é preciso ver que esses meios podem ser considerados como salas de aula, como espaços de transformação de consciência, de aquisição de conhecimentos; que eles dependem de uma pedagogia crítica, e que o sucesso dessa pedagogia crítica depende de como vamos ver e ouvir os produtos da indústria cultural.
Um filme é um local em que questões sociais são discutidas segundo valores explícitos ou implícitos do diretor, da estória, das condições de produção. Se as condições de produção condicionam o filme, é possível reconhecer diretores que, mesmo atuando segundo as convenções do mercado, tentam ir mais além de representações singelas da sociedade.

Se a sala de aula é um espaço da discussão e da reflexão, o filme é este mesmo espaço ampliado em uma escala maior, em que seus procedimentos formais e narrativos passam a ser a linha condutora do viés educacional.

Creio que “Matrix” é um filme que traz essas ambigüidades de reificação e desalienação dos sentidos. “Matrix” pode ser lido da perspectiva da alegoria da caverna de Platão. A tecnologia e as trucagens do filme têm esse duplo aspecto do encantamento, e, ao mesmo tempo, do atuar contra o feiticeiro. Podemos argumentar que o diálogo de Platão é, sem discussão, superior ao filme. Entretanto, o que interessa é utilizar o filme para lermos Platão. Utilizar o cinema para uma redescoberta da literatura filosófica tão necessária e imprescindível no processo escolar, na educação para a cidadania.
A educação necessita lançar um olhar crítico sobre o cinema. Precisa se libertar da crítica especializada e construir seu próprio corpo teórico visando a fins específicos. O cinema é um meio de reflexão da sociedade. Esse meio só depende dos educadores para atender fins educacionais. Depende do que se entende por educação com utilização de recursos midiáticos.

O cinema cada vez mais é objeto de estudos e teses acadêmicas. Muitos educadores se esforçam para a construção de um olhar cinematográfico que possa na renovação das práticas pedagógicas. Ciência artística ou arte científica, conjugação da razão e da imaginação, do rigor e da intuição, o cinema deve ser o agente de uma nova educação que dote o sujeito de uma razão sensual, isto é, de uma razão estética que saiba debruçar sobre si mesma e saiba explorar as possibilidades de um mundo melhor, de uma sociedade de não-excluídos.

O contraponto do cinema é a televisão. No Brasil, a televisão, com poucas exceções, tem servido à deseducação das massas. Pensar a televisão, outro influente espaço imagético, é pensar uma mídia específica que demanda uma abordagem particular; porém, de uma maneira reducionista, se o cinema estimula o pensamento, a televisão o paralisa. Se o espaço imagético cinematográfico é conflituoso, na televisão ele é conciliador. Se no cinema a questão do tempo surge como um conceito problemático que é preciso resolver, na televisão o tempo inexiste.

Enquanto o cinema, mesmo com produções ruins provoca o raciocínio, mobiliza o pensar, a televisão empobrece esteticamente os sentidos, aliena de modo taxativo. Tudo isso precisa ser discutido na perspectiva de uma política audiovisual para as escolas públicas sobretudo.

O capitalismo vive a dualidade do cerceamento versus o impulso tecnológico. Isto é, a tecnologia cria equipamentos que inicialmente possuíam determinada função, dentro do cerceamento, porém, após uma releitura permitem uma modificação de sua função original. Exemplo é a TV digital, que permitirá a troca de informação, e o surgimento de redes de Comunicação alternativas. As emissoras de TV tentarão controlar o digital, contudo o conceito de transformação criará novas realidades.

Ou seja, não se deve pensar na destruição da Rede Globo (que atingiu a excelência técnica), porém ela deve se submeter às leis e aos controles e reconhecer sua responsabilidade social, como os outros canais.

Adotar uma atitude de desprezo diante de fenômenos comerciais significa compartilhar e alimentar a alienação de amplas camadas da população perante um produto que pode iniciá-la num repertório intelectual sofisticado.

O que quero dizer é que o não-visível nas imagens aparece também em produções da indústria cultural. Essas obras podem ser lidas de outra maneira, podem ser apropriadas por um olhar crítico. Um filme feito para enfeitiçar pode nos despertar do sonho. E o primeiro feitiço do qual temos que nos libertar é o chamado cinema de massa, cinema comercial. Este não presta à educação. A teoria do cinema aplicado à educação deve incorporar uma espécie de antropofagia visual: comer as imagens e devolvê-las criticamente num processo pedagógico que vise à autonomia do sujeito.
E o papel do projeto “Cinema Pensar” é em toda sua conjuntura elucidar todo esse prospecto aos jovens alunos.

*Marcello Alves Costa formado em cinema e vídeo pela Unesa, cursando jornalismo e bacharel em Cinema na própria universidade.
Roteirista de curtas metragens com temáticas sociais, ex – membro da ONG “CINEDUC – cinema e educação”



PROJETO RESUMIDO

CINEMA PENSAR

"Quando menos se espera ele chega, o pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, da lamúria, da hesitação. Sem ter programado, a gente pára pra pensar. É como espiar para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada, outras para um jardim de promessas. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar, reavaliar-se. Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos esmaga." -Lya Luft-

Manifesto publicado no site www.midiatatica.org
Escrito por Marcello Alves Costa mentor do projeto

Cineclube “Cinema-Pensar” educando a liberdade do olhar.

Na falta de um eixo entre o cinema comercial e o pensamento humano, onde a arte não tem interação diretamente com a vida e sim com superficialidades da indústria cultural, o Cineclube “Cinema-Pensar” transcende as barreiras comerciais e ativa idéias revolucionárias. O cineclube não pretende colocar em ação qualquer tipo de expressão audiovisual que deixa a existência humana em segundo plano.

Fazer o diferencial pela arte, pela cultura, pelo cinema, por ideais e ideologias, a intenção inicial não é mudar o sistema e sim alertar para como as pessoas reagem ao sistema, deixando claro que não precisamos ser subjetivos, oníricos, metafísicos ou intelectuais para tal.
É preciso sim, conhecer a nós mesmos, a nossa sociedade, as grandes corporações, a televisão, a mídia de uma maneira geral.

Pensar o cinema não é prioridade, a prioridade é pensar a vida, a sociedade, a exclusão, a imoralidade, o ‘feísmo’ cultural e o da alma, no nosso governo, e a partir disso teremos o nosso próprio embate. O que queremos? Mudar a nós mesmos ou ao próximo.
Essas e outras opiniões serão expostas para serem discutidas e pensadas de acordo com a contemporaneidade que nos assusta.
A atitude precisa ser tomada diante da insatisfação. O cineclube é uma iniciativa.

Objetivo

O cineclube “Cinema-Pensar” tem como objetivo exibir filmes com temáticas pouco abordadas e criar grupos de discussão para esses filmes.

O principal objetivo é aflorar o espírito idealista e revolucionário presente em todos nós, para que com isso possamos dar voz para nossas idéias de um mundo mais justo, de um mundo melhor.
A troca de informações entre os participantes do cineclube pode vir a ter resultados em âmbito primeiramente local e com a pós – modernidade e a globalização poderemos dar “voz” para pessoas de todo mundo que se interessem pelas causas tratadas; Causas essas que não vão ficar apenas no projeto de Cineclube, podendo se expandir para todos os meios de arte e comunicação, como por exemplo: exposições, leituras de textos, poesias, palestras e diversas formas da expressão humana.

Projeto idealizado e escrito por Marcello Alves Costa
Referencias de pesquisa/fontes
Leonardo Carmo: Coordenador do Programa Ação Cultural nas Escolas, Secretaria de Estado da Educação de Goiás, Brasil. “O cinema do feitiço contra o feiticeiro”
Eduardo Jaime Torres Ribeiro : Escola Superior Artística do Porto e colunista do jornal “a página” de Portugal. “Jornal "a Página" Nº 112 Ano 11 | PORTUGAL Maio 2002 Pag. 46”

Primeiros Filmes a serem exibidos e analisados:
“Surplus” de Erik Gandini
Documentário sonoro sobre a sociedade de consumo e o capitalismo selvagem e como esse sistema está trazendo desvantagens para a raça humana.

A Corporação - de Jennifer Abbott e Mark Achbar o documentário faz uma analise critica as grandes corporações, como Nike, Coca Cola e etc.

Super Size Me de Morgan Spurlock - A Dieta do Palhaço – Documentário desvenda as mazelas de uma dieta restrita a fast – food.

Contatos
Marcello Alves 3156 2634/ 94372126
marcelorio2003@aol.com / cinemapensar!@yahoo.com.br

Eduardo Pereira Silva 33471197/ 81239329
wakaplot@yahoo.com.br

Marcelo Pinheiro Muller 22257855 / 94372126
marcelop.Muller@bol.com.br

Rafael Albuquerque 22084737
primeirodan@uol.com.br

Obs. Todos que fazem parte do projeto podem incluir nome, telefone e email na lista.



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